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Foto: José Maria Marques |
Por Gustavo Tenório
É
curioso como ao me deparar com um cidadão vestindo uma camisa do
Sergipe na rua me faz parar para cumprimenta-lo ou, em dias mais
corridos e cheios de pressa, lançar-lhe uma enfática e amistosa
saudação colorada. Percebo, também, que sou da mesma forma saudado
quando estou trajado com o manto rubro, seja na rua ou em qualquer
outro lugar da cidade. Mais curiosa ainda é a carga identitária e
de pertencimento que essas (aparentemente) simples interações
cotidianas representam.
Numa
realidade em que há um frio afastamento entre os cidadãos – você
conhece todos os seus vizinhos de condomínio ou os vizinhos
“emurados” da sua rua? –, uma camisa do Gipão acaba
aproximando desconhecidos da forma mais vivaz. O tempo atual insiste
em nos afastar cada vez mais das ruas e do sentimento comunitário.
Chega-se ao ponto de não se ouvir um “Bom dia!”, um “Boa
tarde!” ou um “Boa noite!” na maioria das calçadas da cidade.
Às vezes até acabamos num triste e curto monólogo urbano – é
até melancólico um “Bom dia!” sem retorno.
Uma
camisa do Gipão faz abrir sorrisos, apertar as mãos e dar tapas
cordiais em ombros desconhecidos. “E o Gipão?”, geralmente é
assim que se inicia o contato. Se for complicado atravessar a rua ou
se a pressa se fizer enfática, um brado de “BORA, GIPÃO!” ou de
“GIPÃO CAMPEÃO” chegará aos nossos ouvidos driblando carros e
transeuntes. E buzinas! Buzinas animadas e alegremente ritmadas. O
indivíduo rubro tem um quê festivo, de saudações calorosas. Esses
são momentos que tornam a cidade novamente nossa, mais íntima.
Fazemo-nos pertencidos, enfim, a um lugar comum, entre indivíduos
com uma história e um sentimento também comuns. Seria uma espécie
de sociologia rubra? Uma psicologia social rubra? Uma cultura rubra?
Será que dá para explicar? É tudo isso e mais um pouco.
Ora,
o futebol é um incontestável fator social de reconhecimento e
auto-reconhecimento entre os cidadãos. Ouso dizer que o Sergipe
consegue intensificar essa relação. Tem coisa mais extasiante que
encontrar alguém vestido com uma camisa do Gipão em outro estado ou
em outro país? Ou ver bandeiras rubras estendidas nos estádios da
copa ou de outras competições internacionais? É como se
estivéssemos lá também. Aliás, é como se o mundo fosse nosso. E
de fato o é.