sexta-feira, 31 de agosto de 2018

Sergipe x Cotinguiba e o surgimento do Clássico Vovô

Time do Sergipe que enfrentou o Cotinguiba no primeiro Clássico Vovô em 1916. (Créditos: Globoesporte)
                                                                                                     Por Milton Filho

 Fundados como co-irmãos em outubro de 1909, Sergipe e Cotinguiba nutriram desde muito cedo uma rivalidade no desporto sergipano. Muito antes do Confiança, era o Tubarão da Praia que tinha o posto de principal adversário do Gipão nos certames locais. Fato é que nem sempre o mais velhos saem por cima. Fundado em 10 de outubro daquele ano, o então Cotinguiba Sport Club é até hoje a agremiação mais velha do esporte local que ainda está em funcionamento. O Club Sportivo Sergipe viria ao mundo cerca de uma semana depois, já no dia 17 de outubro. Ambos os clubes que foram fundados para a prática do remo, e que levavam o nome dos importantes rios sergipanos, viriam a rivalizar anos depois no futebol. Assim projetando o esporte para os aracajuanos.

 Mas nem tudo foram flores. A implantação do esporte bretão só se deu nos clubes por causa do Almirante Aminthas Jorge. O esporte bretão não era bem quisto pelos dirigentes por ser visto como algo para desocupados. Ainda assim, em 1916, o almirante conseguiu numa reunião convencer o presidente do Cotinguiba, Godofredo Menezes, e do Sergipe, Euclides Porto a estabelecerem o futebol nos quadros de suas agremiações. E assim foi feito. Porém, a prática esporte ficava restrito aos sócios dos clubes. No início, ambas as agremiações formaram um combinado que derrotou o Sergipe F.C. de Propriá por 4 a 0, no recente campo da Praça Pinheiro de Machado, sendo esta a primeira partida organizada no estado seguindo as normas legais do esporte.

 Acontece que um troféu seria dado ao vencedor do confronto. E como venceu a 'Seleção de Aracaju', criou-se a dúvida de qual time ficaria com a taça. Sendo assim, Sergipe e Cotinguiba tiveram de decidir no campo a qual time o Troféu Ao Preço Fixo iria pertencer. Desta forma, no domingo de 10 de dezembro de 1916, Sergipe e Cotinguiba disputaram o primeiro Clássico Vovô. Na ocasião, o Colorado foi ao campo de jogo com a seguinte formação: Alonso; Cravo e Oliveira; Constâncio Vieira, Lauro e Rolinha; Josué, Vitor, Moraes, Roque e Mendes. Já o Cotinguiba entrou com: Alexandre; Alberto e Travassos; Bessa, Godofredo e Eduardo; Clóvis, Nelson, Chaves, Valdemar e Paulo.

 Na mesma Praça Pinheiro de Machado de outrora, sob a arbitragem de Edgard Magalhães, o Gipão estreou o marcador do clássico com gol de Roque. Sofreu a adversidade da virada, com dois gols de Godofredo, que marcara de pênalti e falta - bola parada não era o forte do vermelhinho -. O mesmo Roque não ficou por menos e estufou as redes mais uma vez, agora marcando tento de cabeça. Já com cerca de quinze minutos para o término do confronto, Clóvis marca contra a própria meta e decreta o placar final. Sergipe 3 x 2 Cotinguiba.

 Assim como venceu o primeiro Clássico Náutico diante do Cotinguiba nas regatas em 1910, o Sergipe vencia a partida de estreia do clássico no futebol, selando mais uma vitória diante do arquirrival. Contribuindo assim para os versos do seu futuro hino: "O Sergipe no esporte na história/Nas pelejas da terra e do mar".

segunda-feira, 30 de julho de 2018

Em uma final repleta de cenas lamentáveis, com direito a presidente mordido por cão policial, o Sergipe conquistou o 2º Turno do Sergipano de 2000.



            No dia 30 de julho de 2000, Sergipe e Lagartense se enfrentaram em busca da Taça Estado de Sergipe, equivalente ao 2º turno do estadual daquele ano. As duas equipes haviam empatado por 0 a 0 na primeira partida ocorrida na cidade de Lagarto. O vencedor não só garantiria uma vaga na grande decisão do Campeonato Sergipano, como também levaria vantagem na finalíssima.

Aílton marcou o polêmico gol para o Sergipe (Foto: Edinah Mary)
Por Davi Tenório


           
A diretoria rubra havia instigado a massa colorada com ingressos com preços reduzidos, com apenas R$2,00 o torcedor rubro garantia seu lugar no João Hora, algo inimaginável nos dias atuais em que o futebol se tornou uma “brincadeira cara”. Além disso, a torcida do Lagartense prometia invadir o Batistão com onze ônibus saindo do interior rumo ao Mundão do Siqueira. Tudo indicava um grande espetáculo para aquela tarde de domingo.

sábado, 14 de julho de 2018

A MARCA RUBRA


Foto: José Maria Marques


Por Gustavo Tenório


É curioso como ao me deparar com um cidadão vestindo uma camisa do Sergipe na rua me faz parar para cumprimenta-lo ou, em dias mais corridos e cheios de pressa, lançar-lhe uma enfática e amistosa saudação colorada. Percebo, também, que sou da mesma forma saudado quando estou trajado com o manto rubro, seja na rua ou em qualquer outro lugar da cidade. Mais curiosa ainda é a carga identitária e de pertencimento que essas (aparentemente) simples interações cotidianas representam.
Numa realidade em que há um frio afastamento entre os cidadãos – você conhece todos os seus vizinhos de condomínio ou os vizinhos “emurados” da sua rua? –, uma camisa do Gipão acaba aproximando desconhecidos da forma mais vivaz. O tempo atual insiste em nos afastar cada vez mais das ruas e do sentimento comunitário. Chega-se ao ponto de não se ouvir um “Bom dia!”, um “Boa tarde!” ou um “Boa noite!” na maioria das calçadas da cidade. Às vezes até acabamos num triste e curto monólogo urbano – é até melancólico um “Bom dia!” sem retorno.
Uma camisa do Gipão faz abrir sorrisos, apertar as mãos e dar tapas cordiais em ombros desconhecidos. “E o Gipão?”, geralmente é assim que se inicia o contato. Se for complicado atravessar a rua ou se a pressa se fizer enfática, um brado de “BORA, GIPÃO!” ou de “GIPÃO CAMPEÃO” chegará aos nossos ouvidos driblando carros e transeuntes. E buzinas! Buzinas animadas e alegremente ritmadas. O indivíduo rubro tem um quê festivo, de saudações calorosas. Esses são momentos que tornam a cidade novamente nossa, mais íntima. Fazemo-nos pertencidos, enfim, a um lugar comum, entre indivíduos com uma história e um sentimento também comuns. Seria uma espécie de sociologia rubra? Uma psicologia social rubra? Uma cultura rubra? Será que dá para explicar? É tudo isso e mais um pouco.
Ora, o futebol é um incontestável fator social de reconhecimento e auto-reconhecimento entre os cidadãos. Ouso dizer que o Sergipe consegue intensificar essa relação. Tem coisa mais extasiante que encontrar alguém vestido com uma camisa do Gipão em outro estado ou em outro país? Ou ver bandeiras rubras estendidas nos estádios da copa ou de outras competições internacionais? É como se estivéssemos lá também. Aliás, é como se o mundo fosse nosso. E de fato o é.

sábado, 23 de junho de 2018

MARA GRINBERG: UM ROMENO COM AS CORES DO CLUB SPORTIVO SERGIPE


Aproveitamos o clima da Copa do Mundo na Rússia para resgatar a história de Mára Grinberg, o primeiro, e talvez único, jogador do Leste Europeu a vestir o manto rubro


Sport Ilustrado, n.259, 1943

Por Davi Tenório


É possível dar a volta ao mundo com a bola nos pés. No futebol, não faltam jogadores que são verdadeiros ciganos da bola, que colecionam passagens e gols por diversos clubes das mais variadas cidades do Brasil, como o folclórico artilheiro Túlio Maravilha, e do Mundo, caso mais recente do uruguaio Loco Abreu. Geralmente, a peregrinação por diversos times é visto como uma afronta a um esporte que transpira paixão e fidelidade. Por vezes, há simplesmente a necessidade e a inquietude de quem tem várias histórias a se viver.
O futebol por diversas ocasiões é um meio de ascensão social dos marginalizados de nossa sociedade. A plasticidade do drible entorta os mais intransponíveis adversários, seja o preconceito, a fome e a guerra. Uma simples pelota foi capaz de parar por um momento o primeiro conflito bélico mundial do século XX. Também foi pelo jogo que inúmeros refugiados apresentaram jogadas com os pés para construir uma nova vida. Atualmente, quase ninguém conhece a história de um desses ciganos da bola que percorreu milhares de quilômetros até se estabelecer no Nordeste do Brasil. Trata-se de Màra Grinberg, oriundo da região da Bessarábia na Romênia, que desfilou pelas canchas de clubes nordestinos, dentre eles o Club Sportivo Sergipe.

sábado, 16 de junho de 2018

QUANDO A POEIRA BAIXOU...




Hoje é sábado. Deveria estar na arquibancada gritando cantos de motivação e paixão ou num silencioso apreensivo a contar os segundos para o apito final de um jogo do Sergipe. Mas estou eu aqui diante da tela de meu notebook a teclar estas palavras melancólicas.
Caiu uma baita chuva nessa tarde de junho aracajuana – nada espantoso, diga-se. Isso não seria motivo para deixar de ir ao Batistão. Levei alguns pingos de chuva nesta temporada, principalmente na Série D – em alguns outros jogos do estadual também, se não me falha a memória. Haveria a proteção da marquise das arquibancadas do meio do estádio para quem se importa ou se um dilúvio precipitasse em nossas cabeças.
Como havia dito, estou em casa. Não estou no Batistão. Tampouco há jogo do Sergipe hoje. Aliás, até o ano que vem não haverá jogo do Gipão. Espantoso? Sempre o é, por mais que o filme venha se repetindo nos últimos anos – seria alguma espécie de maldição? Uma tragédia rubra.
Da glória à frustração. Após um título memorável – e não menos improvável –, a ânsia pelo acesso de divisão era justificada. Estávamos todos muito confiantes, ainda que uma breve turbulência, às vésperas da competição, houvesse causado certo lampejo de incredulidade em um torcedor ou outro. Mas o Sergipe não é para principiantes: o cidadão rubro é calejado; fez-se, faz-se, fazer-se-á moldado por todas as nuanças entre a glória e a tragédia. Ser torcedor do Sergipe tem um quê de classicismo, o que nos dá uma intensidade digna de um personagem de Sófocles ou de Eurípedes, só para citar alguns. De um gol aos 47 minutos do segundo tempo a uma eliminação em casa, as arquibancadas do Batistão presenciaram todo o sentimento do mundo num espaço de mais ou menos um mês. Após o último jogo, no sábado anterior, recusei-me bater nas teclas deste teclado. Preferi me dirigir a um bar a fim de beber a amargura do resultado, enquanto tentava desvelar os erros que percebi. A ressaca no outro dia foi homérica.
Enfim, cá estou eu vestido em uma camisa rubra – uma branca, para ser mais fiel aos fatos – lamentando a campanha do meu time e o fato de não poder ir mais apoiá-lo nas arquibancadas. Tudo isso enquanto acontece jogos da copa do mundo. Mas, afinal, o que é a copa do mundo diante do time do meu coração?


quinta-feira, 31 de maio de 2018

HENÁGIO, O CRAQUE ETERNO


Por Gustavo Tenório.

Sabe aquele grande jogador que a sua idade não lhe permitiu ver em campo? Aquele que se origina de uma pergunta natural a ser feita a seu pai: “qual foi o maior jogador que o senhor viu jogar?”. Meu velho nasceu em 1964, num pequeno povoado de Japoatã chamado Poxim. Aos 11 anos de idade, mudou-se para Aracaju, em 1976, às vésperas dos seus 12 anos. Morou ora no Getúlio Vargas, ora no Siqueira Campos. Desde os tempos de roça acompanhava o Gipão no bom e velho radinho, essa invenção que conectou o Brasil aos Brasis profundos, muitos deles esquecidos.

Meu pai chegou ao Batistão em tempos em que o nosso rival se sagrou campeão, sendo sucedido por uma sequência fatigante de títulos do Itabaiana. Era o final da década de 1970. O Itabaiana conquistou um penta campeonato ininterrupto de 1978 a 1982 (dividindo este último conosco), dois deles sobre o Vermelhinho. O cenário não era nada bom. “Havia um centroavante muito bom no Gipão: Dão! Mas não conseguiu conquistar nada com o Sergipe”, costuma me dizer num tom frustrado.

sábado, 26 de maio de 2018

HÁ 5 ANOS O SERGIPE CONQUISTAVA SEU 33º CAMPEONATO SERGIPANO DIANTE DO RIVER PLATE DE CARMÓPOLIS EM UMA FINAL ÉPICA.

Por Davi Tenório

9 anos, 9 meses e 16 dias. O martírio da torcida colorada não parecia acabar. 180 minutos que poderiam dar fim a uma das páginas mais angustiantes da história rubra. O clube mais tradicional do futebol sergipano enfrentava um longo jejum de títulos, o qual foi interrompido de forma dramática aos 45 minutos do segundo tempo pelos pés de Carlinhos.
O torcedor colorado que acompanhou ao longo da década de 1990 a conquista do hexa e as campanhas de destaque na Série B não poderia imaginar o declínio do futebol sergipano e do clube mais tradicional do estado na década seguinte. Infelizmente, o Sergipe não havia se atualizado conforme o esporte mais popular do mundo ganhava novas roupagens. Consequentemente, o alvirrubro realizou pífias campanhas ao longo da década de 2000, as quais culminaram no longo jejum só interrompido no ano de 2013.

  E o Sergipe, heim!? Por Gustavo Tenório Num sábado qualquer, em um povoado de Japoatã, durante uma confraternização familiar, me deparei...